Quando o revestimento do esôfago sofre danos repetidamente, surgem lesões que podem evoluir para quadros sérios
A queimação no peito após as refeições é uma queixa tão comum que muitos a tratam como algo trivial. Mas quando essa agressão se repete com frequência e sem controle adequado, a mucosa do esôfago começa a ceder: surgem as erosões, caracterizando a esofagite erosiva. A condição é mais prevalente do que se imagina. Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia, a doença do refluxo gastroesofágico afeta entre 10% e 20% da população adulta brasileira, e uma parcela significativa desses pacientes já apresenta algum grau de lesão erosiva ao exame endoscópico.
Compreender o que causa a esofagite erosiva, como a condição se apresenta e quais os riscos de deixá-la sem tratamento é fundamental para tomar as decisões certas antes que o quadro avance para complicações mais sérias.
Saiba mais a seguir.
Graus e classificações da esofagite erosiva
A gravidade da esofagite erosiva é avaliada pela Classificação de Los Angeles, sistema internacionalmente adotado para estadiar as lesões observadas durante a endoscopia digestiva alta. A escala divide a condição em quatro graus:
- Grau A: uma ou mais erosões com menos de 5 mm de extensão, confinadas a uma única prega mucosa;
- Grau B: uma ou mais erosões com mais de 5 mm, ainda limitadas a pregas individuais e sem confluência entre elas;
- Grau C: erosões confluentes entre duas ou mais pregas, mas sem circundar mais de 75% da circunferência esofágica;
- Grau D: erosões que se estendem por mais de 75% da circunferência do esôfago, indicando doença avançada com risco elevado de complicações.
Essa classificação orienta diretamente a escolha do tratamento e a frequência de acompanhamento endoscópico. Pacientes nos graus C e D têm indicação de seguimento mais rigoroso, pelo risco aumentado de estenose e de transformação metaplásica da mucosa.
Quais são as principais causas da esofagite erosiva?
A esofagite erosiva resulta do desequilíbrio entre os fatores que agridem a mucosa esofágica e os mecanismos que a protegem. As causas mais frequentes são:
Refluxo gastroesofágico
A causa mais comum. Quando o esfíncter esofágico inferior perde seu tônus ou funciona de forma intermitente, o conteúdo gástrico ácido retorna ao esôfago e agride sua mucosa, que não possui proteção adequada contra o ácido. A exposição ácida prolongada e frequente é o principal mecanismo de formação das erosões. O refluxo não controlado é também o principal fator de risco para o desenvolvimento do esôfago de Barrett, condição pré-maligna.
Hérnia de hiato
A hérnia de hiato por deslizamento compromete o mecanismo antirrefluxo ao deslocar a junção gastroesofágica para acima do diafragma. Isso facilita o refluxo ácido e prolonga o tempo de exposição da mucosa esofágica ao conteúdo gástrico. Pacientes com hérnia de hiato associada a refluxo têm maior risco de desenvolver esofagite erosiva de graus mais avançados.
Uso prolongado de anti-inflamatórios
Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como ibuprofeno, diclofenaco e aspirina em doses elevadas reduzem a síntese de prostaglandinas, substâncias que protegem a mucosa gastrointestinal. Com o uso crônico, essa proteção diminui e a mucosa do esôfago e do estômago fica mais vulnerável a erosões, mesmo na ausência de refluxo significativo.
Consumo excessivo de álcool
O álcool tem efeito irritante direto sobre a mucosa esofágica e estimula a secreção ácida gástrica. Além disso, reduz o tônus do esfíncter esofágico inferior, favorecendo o refluxo. O consumo regular e em quantidades elevadas é um fator independente de risco para a esofagite erosiva e para outras doenças do trato digestivo superior.
Tabagismo
O cigarro prejudica os mecanismos de proteção da mucosa esofágica por múltiplas vias: reduz a produção de saliva, que tem papel tampão natural contra o ácido; diminui o tônus do esfíncter esofágico inferior; e compromete a motilidade esofágica, retardando o clareamento ácido. Fumantes apresentam maior prevalência e maior gravidade de doença erosiva em comparação a não fumantes.
Quais os sintomas da esofagite erosiva?
Os sintomas da esofagite erosiva nem sempre são proporcionais à gravidade das lesões observadas na endoscopia. Alguns pacientes com erosões extensas referem poucos sintomas, enquanto outros com lesões leves relatam intensa queimação. Os sintomas mais frequentes incluem pirose (queimação retroesternal), regurgitação ácida, disfagia leve a moderada, dor ou desconforto ao engolir, sensação de corpo estranho na garganta e tosse crônica seca. Em pacientes com sangramento das erosões, pode haver anemia ferropriva progressiva.
Como o diagnóstico é realizado?
O diagnóstico da esofagite erosiva é endoscópico. A endoscopia digestiva alta é o único exame capaz de visualizar diretamente as erosões, classificá-las segundo Los Angeles e colher biópsias quando necessário. As biópsias são indicadas para avaliar a presença de metaplasia intestinal (esôfago de Barrett), eosinofilia esofágica ou outras condições que possam coexistir. Exames complementares como a pHmetria de 24 horas e a manometria esofágica são solicitados em casos selecionados para quantificar a exposição ácida e avaliar a motilidade do esôfago.
Quais são os tratamentos para esofagite erosiva?
O tratamento combina medidas comportamentais, medicamentosas e, quando necessário, cirúrgicas. O pilar farmacológico são os inibidores de bomba de prótons (IBPs), como o omeprazol e o pantoprazol, que suprimem a secreção ácida e permitem a cicatrização das erosões. O tratamento geralmente dura oito semanas para os graus A e B, e pode ser estendido para graus C e D. A endoscopia de controle é realizada ao final do tratamento para confirmar a cicatrização.
Quando a causa é estrutural — como a hérnia de hiato com refluxo refratário ao tratamento clínico —, a fundoplicatura laparoscópica é a solução definitiva. Esse procedimento minimamente invasivo reconstrói o mecanismo antirrefluxo, elimina a dependência medicamentosa e apresenta excelentes taxas de cicatrização das erosões no longo prazo.
Riscos e complicações de não tratar a esofagite erosiva
A esofagite erosiva não tratada adequadamente pode evoluir para complicações significativas. A estenose esofágica péptica ocorre quando a inflamação crônica leva à fibrose e ao estreitamento do esôfago, causando disfagia progressiva. O esôfago de Barrett é a complicação mais temida: a mucosa esofágica normal é substituída por epitélio metaplásico intestinal, condição pré-maligna associada ao risco aumentado de adenocarcinoma de esôfago. O sangramento por erosões pode causar anemia crônica. Por isso, o tratamento precoce e o acompanhamento endoscópico regular são inegociáveis.
Como prevenir a esofagite erosiva?
A prevenção passa pela modificação dos fatores de risco modificáveis: controle do peso corporal, abandono do tabagismo, redução ou eliminação do consumo de álcool, uso racional de anti-inflamatórios e ajustes na alimentação. Elevar a cabeceira da cama em 15 cm e evitar deitar nos primeiros 90 minutos após as refeições reduzem a exposição ácida noturna, que é particularmente lesiva para a mucosa esofágica
Dieta e alimentação adequada em pacientes com esofagite erosiva
A alimentação tem papel relevante no controle dos sintomas e na prevenção das recidivas. Alimentos gordurosos, chocolates, café, chás com cafeína, refrigerantes, frutas cítricas, tomate e molho de pimenta aumentam a produção ácida ou reduzem o tônus do esfíncter, agravando o refluxo. Refeições menores e mais frequentes, com mastigação cuidadosa, diminuem a pressão intragástrica. A ingestão de água em pequenos volumes ao longo do dia ajuda a tamponar o ambiente esofágico e facilitar o clareamento ácido.
Qual especialista trata a esofagite erosiva?
A esofagite erosiva é tratada primariamente pelo gastroenterologista ou pelo cirurgião do aparelho digestivo, dependendo da necessidade de intervenção cirúrgica. Quando o refluxo é a causa e o tratamento clínico não é suficiente, o cirurgião especializado em cirurgia esofagogástrica toma a frente, avaliando a indicação da fundoplicatura laparoscópica.
Importância da investigação da dor com um especialista
Azia frequente, dificuldade para engolir ou dor retroesternal não devem ser tratadas apenas com antiácidos de balcão por tempo indefinido. Esses sintomas podem ser a manifestação de uma esofagite erosiva em evolução, e somente a endoscopia é capaz de avaliar o estado real da mucosa e orientar o tratamento correto. Adiar essa investigação significa permitir que as lesões progridam silenciosamente para estágios mais difíceis de tratar. Buscar um especialista no primeiro sinal de alarme é sempre a decisão mais inteligente.
Agende já sua consulta com o Dr. Wilson Martinuzzo.

