Condição dolorosa pode tornar-se um risco real de vida, caso não haja intervenção adequada e precoce
O pâncreas é um órgão pequeno, situado atrás do estômago, com funções essenciais: produz enzimas digestivas e regula a glicemia por meio da insulina. Quando algo perturba esse equilíbrio e as enzimas se ativam dentro do próprio pâncreas antes de chegar ao intestino, começa um processo de autodigestão que resulta na pancreatite aguda. O quadro pode variar enormemente em intensidade, mas nunca deve ser subestimado.
Neste conteúdo, conheça mais sobre esse quadro, que é uma das causas mais comuns de hospitalização por doença gastrointestinal no Brasil. Reconhecer seus sintomas precocemente e buscar atendimento médico sem demora faz toda a diferença no curso da doença.
O que é e o que causa a pancreatite aguda?
A pancreatite aguda é a inflamação súbita do pâncreas, desencadeada pela ativação prematura das enzimas pancreáticas dentro do próprio órgão. Em vez de serem liberadas inativas no duodeno, essas enzimas começam a digerir o tecido pancreático e as estruturas vizinhas, gerando inflamação intensa e, nos casos graves, necrose.
As duas causas mais frequentes, responsáveis por cerca de 80% dos casos, são os cálculos biliares e o consumo excessivo de álcool. Os cálculos migram da vesícula e obstruem o ducto pancreático, impedindo o escoamento das enzimas. O álcool, por sua vez, altera diretamente o metabolismo das células acinares pancreáticas, favorecendo a ativação enzimática interna. Outras causas incluem hipertrigliceridemia severa, uso de certos medicamentos, trauma abdominal, procedimentos endoscópicos (CPRE) e, mais raramente, causas autoimunes ou hereditárias.
Quais os sintomas da pancreatite aguda?
O sintoma cardinal da pancreatite aguda é a dor abdominal epigástrica intensa, de instalação relativamente rápida, com irradiação característica em faixa para as costas. A dor tende a ser contínua, piora ao deitar em decúbito dorsal e melhora ligeiramente quando o paciente se inclina para frente. Náuseas e vômitos acompanham o quadro em praticamente todos os casos, sem trazer alívio da dor. Febre baixa, distensão abdominal e intolerância alimentar, por sua vez, também completam o cenário mais típico.
Nos casos graves, outros sinais podem surgir: icterícia, queda da pressão arterial, taquicardia e sinais de peritonite. A equimose periumbilical (sinal de Cullen) ou nos flancos (sinal de Grey Turner), embora raros, indicam hemorragia retroperitoneal e são marcadores de gravidade extrema.
Quem tem pancreatite corre risco de vida?
A maioria das pessoas com pancreatite aguda tem a forma leve da doença e se recupera completamente em alguns dias com tratamento de suporte. Mas em cerca de 20% dos casos o quadro é moderado ou grave, e nesses pacientes o risco de morte existe e não é desprezível. A mortalidade global da pancreatite aguda gira em torno de 3% a 5%, mas sobe para 15% a 30% nas formas necro-hemorrágicas complicadas por infecção e falência orgânica.
Os pacientes com maior risco são:
- Idosos;
- Com obesidade;
- Com comorbidades cardiovasculares ou respiratórias;
- Que chegam ao hospital com sinais de comprometimento sistêmico já instalados.
Por isso, qualquer suspeita de pancreatite aguda exige avaliação hospitalar, não ambulatorial.
Qual a gravidade de uma pancreatite aguda?
A gravidade é estratificada por sistemas de pontuação clínica como o escore de Ranson, o APACHE II e o Bedside Index of Severity in Acute Pancreatitis (BISAP), que analisam variáveis laboratoriais e clínicas nas primeiras 24 a 48 horas. A tomografia computadorizada de abdome com contraste é o principal exame de imagem para avaliar a extensão da necrose pancreática e peripancreática, sendo fundamental para o estadiamento dos casos moderados e graves. A classificação de Balthazar, baseada na tomografia, é um dos índices mais utilizados para estimar o prognóstico.
De modo geral, a pancreatite aguda é classificada em:
- Leve: sem falência orgânica e sem complicações locais;
- Moderada: com falência orgânica transitória ou complicações locais;
- Grave: com falência orgânica persistente por mais de 48 horas.
Essa estratificação precoce orienta o nível de cuidado necessário e a necessidade de transferência para UTI.
Como o diagnóstico é confirmado?
O diagnóstico de pancreatite aguda é estabelecido quando dois dos três critérios a seguir estão presentes: dor abdominal típica, elevação das enzimas pancreáticas (amilase ou lipase) acima de três vezes o limite superior da normalidade no exame de sangue e achados de imagem compatíveis com inflamação pancreática.
A lipase é mais específica que a amilase e permanece elevada por mais tempo, sendo o marcador laboratorial preferido. A ultrassonografia abdominal é solicitada desde o início para identificar cálculos biliares como causa. A tomografia, por sua vez, é reservada para os casos em que a gravidade não está clara clinicamente ou quando há suspeita de complicações.
Como é o tratamento para pancreatite aguda?
O tratamento da pancreatite aguda leve é clínico e de suporte. A pedra angular é a hidratação venosa agressiva e precoce, que melhora a perfusão pancreática e reduz o risco de progressão para formas graves. O paciente fica em jejum inicialmente, com progressão cuidadosa da dieta oral assim que a dor cede e a tolerância alimentar se restabelece. A dor é controlada com analgésicos endovenosos. Antibióticos não são indicados de rotina, sendo reservados para casos com infecção documentada.
Nos casos moderados e graves, o manejo é feito em unidade de terapia intensiva, com monitoramento contínuo das funções orgânicas, suporte nutricional enteral precoce por sonda e acompanhamento tomográfico seriado para detectar complicações como necrose infectada, pseudocistos e abscessos pancreáticos.
Quando o tratamento cirúrgico pode ser indicado?
A cirurgia é reservada para situações específicas e bem definidas. A indicação mais frequente é a colecistectomia laparoscópica para remoção da vesícula biliar nos pacientes em que a causa da pancreatite foi a litíase biliar: o procedimento minimamente invasivo é realizado na mesma internação nos casos leves, ou após a resolução do quadro agudo nos casos mais graves, para prevenir a recorrência.
Outros cenários cirúrgicos incluem a necrosectomia em casos de necrose pancreática infectada que não responderam à drenagem minimamente invasiva guiada por imagem, e a drenagem de pseudocistos sintomáticos de grande volume.
Qual médico trata a pancreatite aguda?
O tratamento inicial da pancreatite aguda é conduzido pelo clínico ou pelo gastroenterologista, com suporte de intensivista nos casos graves. O cirurgião do aparelho digestivo entra no manejo quando há indicação de intervenção, seja a colecistectomia laparoscópica na fase eletiva, seja procedimentos de drenagem ou necrosectomia nos casos complicados.
O Dr. Wilson Martinuzzo, cirurgião especializado nas áreas gastrointestinal, proctológica e hepática, está habilitado para realizar a avaliação e o tratamento cirúrgico dos pacientes com pancreatite, com preferência pela abordagem minimamente invasiva sempre que possível.
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